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quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Os primeiros anos da Divisão Internacional da Rede Globo - 1ª parte [1970 a 1977]

pesquisa e redação • Gabriel Sarturi

 

Conforme análise do pesquisador Sérgio Mattos (1990), o período de 1975 a 1985 corresponde à terceira fase do desenvolvimento da televisão no Brasil, marcada pelo progresso tecnológico. O autor expõe que é nesse trecho temporal que compreende-se, entre demais características de demarcação, o início das transmissões de fitas dos programas de televisão brasileiros.

"As recomendações governamentais exerceram uma influência muito forte nas redes de televisão. Lembrada continuamente das suas responsabilidades para com a cultura e o desenvolvimento nacional, a televisão começou a nacionalizar seus programas […]. Também como resultado das orientações governamentais, iniciadas no governo Médici e continuadas no de Geisel, foi que se delineou o que seria a terceira fase de desenvolvimento da TV: as grandes redes, principalmente a Rede Globo, obtiveram a exportação dos programas que produzem." (Mattos, 1990, p. 17. Grifo meu).

É neste período que se verifica a expansão da comercialização, para emissoras estrangeiras, da dramaturgia televisiva brasileira, em especial da Rede Globo, gerando, no acervo, versões adaptadas especialmente para a venda internacional de determinadas obras. Com base em pesquisa documental em acervos digitais de jornais e revistas, através da Hemeroteca Digital Brasileira, além de livros e sites dedicados, o texto abaixo apresenta uma cronografia da Divisão Internacional da Rede Globo em seus primeiros anos de funcionamento, no intuito de compilar as mais diversas curiosidades a respeito das edições internacionais dos produtos da emissora: das novelas ao Fantástico, passando pelas séries brasileiras e pelos musicais; desde suas origens, no início dos anos 1970, em um terreno incerto de negócios, até o final dos anos 1980, quando o know-how adquirido permitiu uma padronização do conteúdo exportado.

Agradecimento especial a Fernando Noronha, amigo e também pesquisador nesse texto, posto que primeiro se interessou pela investigação às versões internacionais de novelas dos anos 1970 e 1980 e, com seus achados no extinto site da Divisão Internacional da Globo e no acervo disponibilizado pelo site worldradiohistory.com, imensamente contribuiu ao desenvolvimento dessa pesquisa.

Frisa-se: O texto a seguir apresenta uma pesquisa voltada à história da Divisão Internacional da Rede Globo. Assim como fora desenvolvido pelo autor em monografia de 2024, alusiva ao departamento de Arquivo de VT da mesma emissora, salienta-se que as apurações aqui listadas NÃO se relacionam diretamente, sob hipótese alguma, aos projetos “Resgate” e “Fragmentos” da plataforma Globoplay, sendo quaisquer afirmações voltadas à disponibilização dessas obras — com base nessas averiguações a respeito dos departamentos — especulações alheias ao texto publicado, o qual busca tão somente compreender o que o acervo possui, e não “se” e “como” o conteúdo será resgatado para acesso ao público. A viabilidade e forma de publicação por parte da emissora, título a título, não é elemento dos tópicos dos materiais — sequer isso foi apurado, muito menos é objetivo do pesquisador.

Essa pesquisa foi realizada de maio de 2024 a julho de 2025.
A redação se desenvolveu de abril a julho de 2025.

A lista de referências encontra-se no post de epílogo.

Nessa 1ª parte da reportagem, você vai ver:

No prólogo, a fase piloto, de 1970 a 1974;

1ª fase: a fase exploratória, de 1974 a 1977.

...

Fase piloto: scripts e latas mal conservadas


1. Hermano, é preciso coragem


As menções mais ancestrais sobre as cogitações de exportação de programas brasileiros — tratando-se de conteúdo gravado, e não de roteiros, frisa-se — descobertas pelo pesquisador datam do mês de outubro de 1970. “Irmãos Coragem”, então em seu 4º mês de exibição no Brasil, era a favorita para estrear a internacionalização da emissora.

A CBS (Columbia Broadcasting Systems), o maior grupo de televisões dos Estados Unidos, pediu opção para distribuir as novelas da Globo. Não se trata apenas de vender os direitos de produção (como o México fazia com a gente ou a Argentina fez com Simplesmente Maria, também conhecida como Imagine Se Não Fosse Tão Simples), mas tape (vertido para 16 mm — kinescope) pronto para dublagem. A CBS pretende distribuir as novelas (o negócio com “Irmãos Coragem” já está quase fechado) primeiramente para América Latina e Europa. Mais tarde, quando a Globo estiver operando a cores (1971) [O que, afinal, veio a ocorrer somente em 1972 (Mattos, 1990, p. 16)], elas entrarão no mercado norte-americano. Como se pode notar, a notícia é importante. Com o pedido da CBS, a televisão brasileira ganhou um atestado de “mínimo de qualidade” e se este mínimo é muito baixo parece que o problema é internacional. Além da possibilidade de maiores rendimentos para a emissora, a distribuição das novelas pela CBS é um prêmio para dezenas de profissionais competentes que levam muito a sério seu trabalho e que, com muito esforço, realmente estão conseguindo melhorar o nível do produto (qualquer pessoa que veja regularmente televisão pode atestar isto). Quanto às razões para o negócio, não há muito o que explicar. Nos Estados Unidos as novelas são transmitidas de manhã e à tarde, por este motivo, não compensa fazer nada além de séries filmadas que, mesmo com os recursos disponíveis, não conseguem a mesma qualidade de imagem do videotape. Além disto, a televisão norte-americana é obrigada, também por questões de custo, a utilizar artistas do segundo time (quer dizer, Tarcísio Meira não precisará disputar com Richard Burton). Isto no caso da distribuição nos Estados Unidos. Na América Latina a questão é bem mais simples, pois a produção de novelas (e outros programas) nestes países é bem inferior à brasileira. Uma das consequências imediatas do acordo será o aprimoramento do produto. A Globo não pretende investir muito mais nas novelas, mas com o nomezinho sendo lido em outros países, as bonecas vão caprichar. Por outro lado, deverá surgir problemas em torno de direitos autorais, mas isto vai depender, certamente, da aceitação que as novelas tiverem. Se, pelo menos na América Latina, os tapes brasileiros conseguirem estourar a praça, um campo de trabalho imenso vai se abrir. Não só através da televisão, mas também do cinema. O que é muito promissor, pois há milênios os artistas brasileiros esperam sua vez. (Prado, 1970. Grifos meus).

Dali uma semana, uma nota publicada no jornal O Globo já denotava a existência de um teste dublado de “Irmãos Coragem”:

O diretor-geral da Cacex, dr. Benedito Moreira, considerou de alta importância, para a política brasileira de comércio exterior, a possibilidade de serem exportadas telenovelas em espanhol pela Rede Globo de Televisão. Depois de ter assistido, em seu gabinete, à exibição da experiência-piloto de um capítulo, falado em espanhol, da novela “Irmãos Coragem”, e de ser informado pelos representantes da TV Globo sobre os mercados da América Latina e as perspectivas que oferecem de colocação imediata, garantiu todo o apoio da Cacex para que o Brasil possa competir nesse setor e abrir nova fonte de divisas. (O Globo, 1970. Grifo meu).

Em poucos dias, além do pedido de prioridade da CBS para a distribuição de “Irmãos Coragem”, já se sabia que outra novela, “Véu de Noiva”, trama exibida às oito da noite que antecedeu “Irmãos Coragem”, — ambas de mesma autoria, a escritora Janete Clair — “foi vendida para a Argentina, México, Chile, Peru e Venezuela” (Swan, 1970). No entanto, em julho de 1971, matéria publicada pela Revista Veja explicara que houve impossibilidade da transação como inicialmente desejada.

A concorrência promete se estender aos seus países de origem (geralmente Cuba, México, Peru e Argentina), para onde as televisões brasileiras começam a exportar suas novelas. Os mexicanos já compraram “Véu de Noiva” e “Irmãos Coragem” (apenas o texto, porque as fitas estavam com defeito técnico), os argentinos estão assistindo ao “Beto Rockfeller” e a TV Peruana já encomendou “O Homem Que Deve Morrer” à Rede Globo. (Veja, 1971. Grifo meu.)

Em novembro daquele ano, a Rede Globo emitiu um informe publicitário impresso voltado à divulgação de seus recentes avanços na emissão internacional de seus programas:

Informe publicitário da Rede Globo em 1971. Fonte: O Globo, 1971.

Alguma coisa deve estar mudando. Antes você via novelas que vinham de Cuba, os velhos dramalhões que usted jamais olvidará. Agora, até o México vê as novelas que você já viu aqui. Como está acontecendo com “O Homem Que Deve Morrer”, que vai passar lá, inteiramente produzida por nós. E também com “Véu de Noiva” e “Irmãos Coragem”, que tiveram seus scripts comprados por eles. Enquanto isso, a TV Educativa dos Estados Unidos põe no ar, coast to coast, um programa brasileiro de 1 hora. Nome do programa: “Som Livre Exportação”. (Por esse nós não cobramos nada. Queríamos mostrar aos americanos um pouco de música brasileira) [Informação confrontada pela apresentação de “Som Livre Exportação” na página Memória Globo (2023), ao descrever que “a ideia inicial era exportar o programa para promover a música brasileira no exterior, mas isso acabou não acontecendo”]. Programa vai, programa vem, o Amaral Neto Repórter chega a Portugal e África. E assim levamos o Brasil um pouquinho mais longe. E logo mais, quando nossa produção a cores estiver no ar, teremos nossos tapes distribuídos nos Estados Unidos e Europa, pela CBS, NCA e outras. Tudo isso é tão bom, que este anúncio acabou virando uma carta aberta para o Ministro Delfim Netto. Porque acabamos de falar aqui de um novo produto brasileiro para exportação: programas de TV. (O Globo, 1971).

Mas, ao contrário do projetado no informe, também não foi com “O Homem Que Deve Morrer” que um país estrangeiro assistiu, pela primeira vez, uma novela brasileira. Uma nova apuração publicada na Revista Veja, em agosto de 1972, explicava as razões as quais culminaram por retardar o processo:

Beto Rockefeller, João, Jerônimo e Duda Coragem, Nino, o italianinho, e o Cafona, entre outros heróis e heroínas da TV brasileira, não morreram — emigraram. Produzindo emoções, aplausos, lágrimas e ibopes, agora em castelhano, espalharam-se pelas Américas do Sul e Central. Os que ainda não foram, como tia Mequita, tio Pepe e Renato (de “Minha Doce Namorada”), ou Tucão e Quidoca (de “Bandeira 2”), estão de malas quase prontas e com planos de viagem ainda mais promissores. Até agora, todas as onze novelas brasileiras exportadas em menos de dois anos ganharam visto de saída só em forma de script. Os produtores e empresários das TVs latino-americanas se interessavam apenas pelos textos, e em seus países faziam adaptações criando ou matando alguns personagens. Mas o entusiasmo do público foi tão grande, que eles agora se interessam também na compra dos enlatados: das novelas prontas. Novo mercado — Os mais felizes com as exportações são, sem dúvida, os autores. Para eles é vantajoso vender um script que teria como único destino, depois do último capítulo em português, as estantes. Além de serem bem pagos — de 80 a 120 dólares por capítulo -, recebem direitos autorais das emissoras que compram dos empresários o direito de passar as novelas. “Isso não apenas significa um reconhecimento da qualidade das nossas novelas, como também um novo mercado de trabalho”, diz o casal de novelistas Dias Gomes e Janete Clair, os primeiros a venderem uma novela, “Véu de Noiva”. Depois venderam mais quatro: “Verão Vermelho”, “Irmãos Coragem”, “Assim na Terra como no Céu” e “O Homem que Deve Morrer”. De todas, apenas “Irmãos Coragem” está sendo exibida, e já causou uma revolução no México, onde o mercado é dominado pelo Tele-Sistema que possui três emissoras. Os outros canais praticamente não tinham nenhuma audiência, e foi justamente um deles, o Canal 8, que colocou “Hermanos Coraje” no ar. O resultado foi surpreendente, a emissora pulou do quinto para o primeiro lugar no horário das 21h30, e Janete Clair, a autora, já recebeu a encomenda de aumentar a novela de 321 para 389 capítulos. Além do México, “Irmãos Coragem” está sendo exibida no Peru e na Argentina. E até o final do ano irá para um canal de língua espanhola de Nova York e para Porto Rico. (Veja, 1972. Grifos meus).

Logo da versão latina de “Irmãos Coragem”. Fonte: 40 años: Historia de la Televisión Peruana, 1998.

“Irmãos Coragem” segue uma trilha de sucesso percorrida por praticamente todas as novelas exportadas — ou em exibição -, como “Beto Rockefeller”, de Bráulio Pedroso (levada há dois anos na Argentina), e “Minha Doce Namorada” e “Pigmalião 70”, de Vicente Sesso (a primeira sendo levada na Argentina e a segunda pronta para ser levada no México). “A Fábrica” e “Nino o Italianinho”, de Geraldo Vietri, completam o quadro das exportações, enquanto as negociações de “O Cafona” não são concluídas. Tape a salvo — “As novelas brasileiras são as mais bem feitas em todo o mundo”, disseram os empresários ao diretor-geral da Rede Globo, Walter Clark, que estuda então as possibilidades de, “no máximo até o fim do ano, exportarmos as nossas latas”. Segundo ele, existem sérios problemas a serem resolvidos. “As dublagens, por exemplo, custam muito caro, e ainda não encontramos uma fórmula de barateá-las”. Além disso, praticamente todos os tapes das novelas passadas foram “apagados” uma vez que a hora de fita virgem custa 800 cruzeiros e as emissoras reaproveitavam-nas por questões de economia. Enquanto nada fica resolvido, “Bandeira 2”, por ter saído do ar há pouco mais de um mês — e portanto com suas fitas ainda a salvo -, é a mais cotada para encabeçar o novo lote de exportações. Os empresários argentinos estão muito interessados em sua compra, não apenas por acharem que ela é uma novela excepcional, mas principalmente por sua trama ser facilmente adaptável à vida argentina. A novela sofreria poucas modificações: o jogo do bicho, fundamental na história, simplesmente seria substituído pelo “quimiela”, um jogo também ilegal, bastante popular, e cujos chefes se assemelham muito às figuras dos bicheiros retratados na novela. (Veja, 1972. Grifos meus).

2. Vamos botar de lado os entretanto e partir logo pros finalmente


Foi somente com “O Bem-Amado”, novela das dez exibida em 1973, primeira em cores do Brasil, que o prognóstico viria a concretizar as tentativas de exportação de teledramaturgia em tape iniciadas desde o início da década. O advento da cor na televisão brasileira demonstrou-se crucial para o fortalecimento da investida internacional da Rede Globo:

Edwaldo Pacote, responsável pela divulgação da TV Globo, confirma: “A qualidade da TV a cores brasileira é considerada pelos técnicos estrangeiros — americanos e alemães, inclusive — como excepcional. Este padrão de qualidade resultou de um sistema híbrido que tirou dos sistemas alemão e americano o que cada um tinha de melhor. Uma prova desse apuro técnico é o interesse que os programas a cores realizados pela Globo vêm despertando no exterior” — diz Pacote. “Por exemplo: Inicialmente, vendíamos apenas os textos das novelas. “O Bem-Amado” foi nossa primeira novela a cores. Ela foi imediatamente adquirida pelo México para dublagem e exportação para toda a área americana de língua espanhola. A partir daí, o interesse — mesmo de países europeus — pelas nossas produções têm crescido de tal maneira que estamos estudando a possibilidade de realizar dublagens em espanhol, francês, inglês e até alemão, aqui mesmo em nossos estúdios”. A Globo gastou cerca de 2 milhões de dólares para começar suas emissões a cores. Atualmente, o canal 4 carioca tem entre cinco e seis horas diárias de programação colorida. Até 1978, a emissora pretende apresentar praticamente todos os seus programas em cores. A partir de março, toda a programação vespertina da Globo já será a cores, à exceção da “Vila Sésamo”. O Fantástico — atualmente só com pequena parte colorida — e os Caso Especial também serão totalmente a cores em 1974. Segundo técnicos da TV Globo, para implantação imediata de toda a programação a cores seria necessário um investimento de 10 milhões de dólares.” (Jornal do Brasil, 1973. Grifo meu).

A título de complementação contextual, faz-se necessário assimilar as dificuldades operacionais envolvidas na transição para a produção nacional de televisão em cores, desenvolvida forçadamente sob aspectos políticos e econômicos:

Inaugurada de certa forma às pressas, por determinação do governo Médici, a televisão colorida começou timidamente sua escalada na conquista de horários nas estações […]. “A implantação da TV em cores no Brasil era mesmo inevitável”, afirma Edwaldo Pacote, da Globo. “As indústrias eletrônicas japonesas, alemãs e americanas já não estavam mais produzindo equipamentos para as transmissões em branco e preto. Nós, da Globo, entendíamos, porém, que o processo de implantação deveria ser mais lento (…)” […]. Essa euforia colorida, contudo, argumentam a Globo e Tupi […], custa muito caro e atinge pouco público. Sem incluir as despesas com a amortização dos investimentos feitos na compra de equipamentos, elas calculam que um programa em cores custa no mínimo três vezes o preço de um idêntico em branco e preto. “A transmissão é feita pelo mesmo preço”, diz Rubens Furtado, da Tupi do Rio. “Até a imagem chegar na ponta da antena é que é fogo. A produção custa caro”. De acordo com Furtado, só em iluminação as emissoras gastam cinco vezes mais na produção de um programa em cores […]. O equipamento em cores é muito mais caro: uma câmera em branco e preto, por exemplo, custa em torno de 80.000 cruzeiros, enquanto uma em cores custa 800.000. As fitas são 20% mais caras e duram duas vezes menos. E em tudo as gravações de programas em cores requerem tratamentos especiais. “Até mesmo no pessoal técnico, que por ser mais especializado ganha mais”, acrescenta Furtado. (Veja, 1974. Grifo meu).

A venda de “O Bem-Amado” foi noticiada nas últimas semanas de sua exibição original, em matéria que também trouxe detalhes da adaptação para o mercado hispânico:

Depois de tanto invocar a ajuda do “Padin Pade Ciço”, Zeca Diabo (Lima Duarte) troca de devoção e passa a clamar pelas boas graças da Virgem de Guadalupe. Não por falta de fé no querido santo de Juazeiro do Norte, mas por imposição do mercado internacional. Isso vai acontecer na versão mexicana de “O Bem-Amado”, a primeira novela brasileira que será apresentada no exterior na sua concepção original, após (ilegível) dublagem. Além da nova devoção de Zeca Diabo, da adequada transposição dos incríveis neologismos de Odorico (Paulo Gracindo), a emissora mexicana promete manter o mesmo sabor que concretiza a novela de Dias Gomes. Depois de exibida no México, “O Bem-Amado” será apresentada em alguns países latino-americanos e no Canal 9 de Nova York, para as colônias porto-riquenha, cubana e de outras nações de língua espanhola da grande cidade norte-americana. A venda dos tapes dos 177 capítulos de “O Bem-Amado” representa, para a Rede Globo de Televisão, a abertura de mais uma etapa na sua ofensiva de exportação de programas e novelas. Nova etapa — Até agora as vendas para o exterior se limitavam aos direitos de utilização dos textos, como “Irmãos Coragem”, “Selva de Pedra” e “Minha Doce Namorada”, que após adaptação foram novamente produzidas com artistas, técnicos e diretores do país comprador. A direção da Globo aponta várias vantagens com a nova etapa que se abre e destaca a ampliação do mercado de trabalho para profissionais de televisão, pois além das novelas a emissora produzirá ainda este ano, para exportação, dois especiais e dois telefilmes destinados à série Première Mundial, todos a cores. A novela “Os Ossos do Barão”, ainda em fase de produção, também já foi negociada para o México, no mesmo esquema de “O Bem-Amado”. (O Globo, 1973).

Em 1974, a Globo chegou a exibir cenas de “O Bem-Amado” dubladas no Fantástico:

Lembram-se de Paulo Gracindo, há cerca de um ano, no Fantástico, dublado em espanhol? Era um trecho de “O Bem-Amado”, um piloto que a Globo editou e mandou dublar no México, ao constatar que o nível técnico alcançado pelos seus programas já lhe permitia brigar por um mercado até então dominado pela televisão mexicana: o das telenovelas. Esse piloto, exibido em quase todos os países da América Latina — e que obteve total aceitação -, foi o ponto de partida para a quebra do monopólio mexicano, mesmo que se enfrentasse um problema complicado: o da dublagem. E logo que terminem os trabalhos de reedição, “O Bem-Amado” começará a ser exibido na Colômbia, Peru, Chile, Equador, Bolívia, Paraguai, Uruguai, Guatemala, Nicarágua, Panamá, e em pool, na República Dominicana, Honduras, no El Salvador, Costa Rica e Curaçao. Sem contar a Spanish International Network, que envolve treze emissoras do sul dos Estados Unidos, transmitindo para telespectadores da língua espanhola. (O Globo, 1975a. Grifos meus).

...

1ª fase: a instituição de uma Divisão Internacional


1. Uma novela chamada “transcodificação”


Ainda naquele mesmo 1974, enfim fora oficializado o nome e as funções específicas de um novo departamento na emissora: era o nascimento da Divisão Internacional.

[…] Um novo departamento foi criado na TV Globo: a Divisão Internacional. Alberto Lopes, que divide com Mário Arce a responsabilidade pelo setor (ainda subordinado a outro departamento da empresa, a dos Eventos Especiais), explica: “É preciso esclarecer que estamos nos movimentando numa área desconhecida, inédita na televisão brasileira. Daí a nossa cautela. A Globo ainda está se estruturando no setor, e, embora os primeiros resultados sejam muito alentadores, há muito o que aprender. De uns quatro anos para cá, com a constante melhora de sua qualidade técnica e artística, inclusive no que se refere à cor, sentiu que poderia colocar seus programas no mercado internacional: os pilotos que venha apresentando nos congressos de telecomunicações tiveram irrestrita aceitação. E como a telenovela, atualmente, é seu maior investimento, é natural que seja seu produto mais vendável. Como se sabe, a telenovela, tal como é feita no Brasil, é um fenômeno típico da nossa televisão. Tem, portanto, a maior chance de concorrer com sua congênere mexicana, que domina o mercado latino-americano. Mas há o problema da dublagem, que encarece notavelmente os custos. O que não ocorre, por exemplo, com os musicais — de colocação muito fácil, “Globo de Ouro” já há tempos vem sendo exibido em vários países latino-americanos, como o Chile, por exemplo. Especiais de Sérgio Mendes, Roberto Carlos ou Elis Regina já foram vendidos ao México, Venezuela, Chile, Panamá, Uruguai, Estados Unidos e Portugal. Está em fase de negociações a venda desses Especiais, e possivelmente de documentários do Globo Repórter, para a TV espanhola. “Os espanhóis, por enquanto, não estão particularmente interessados nas nossas novelas” — explica Alberto Lopes, vindo recentemente de Madri — “eles têm por norma não exibir seriados com mais de vinte capítulos. Mas estão interessados nos musicais brasileiros. Não foi concretizado ainda o negócio por conta das dificuldades para estabelecer o preço”. (O Globo, 1975a. Grifos meus).

A citada reedição de “O Bem-Amado” se fez necessária por uma exigência de mercado, uma vez que “os capítulos […] têm, em média, 33 minutos de duração, mas o mercado latino-americano exibe, no máximo, meia-hora diária de novelas, inclusive dois intervalos comerciais” (O Globo, 1975a. Grifo meu).

Paulo Ubiratan, editor da Divisão Internacional, tem, pois, a difícil tarefa de efetuar os cortes (às vezes um corte acarreta outro). “Como os tapes de “O Bem-Amado” — a primeira novela a cores produzida no Brasil — viajaram praticamente o país todo, e por isso encontram-se um pouco arranhados, tenho que estar atento também para isso: além dos cortes exibidos pela questão do tempoelimino os trechos em que a qualidade técnica está prejudicada. É bastante trabalhoso. O trabalho de reedição, que está sendo feito nos estúdios da TV Educativa (alugados pela Globo, com suas máquinas todas ocupadas), envolve também o problema de transcodificação, isto é, a passagem do sistema PAL-M (adotado pelo Brasil), para o sistema NTSC (da televisão americana e dos demais países da América Latina). Mas só nos Estados Unidos, Panamá e Porto Rico é que “O Bem-Amado” vai ser exibido a cores: os demais países compradores só possuem televisão preto-e-branca. Inclusive Portugal. Editada e transcodificada, a matriz será enviada para a CINSA (Cinematografica International), um dos mais importantes laboratórios de dublagem em todo o mundo. Ali se conseguiu obter um espanhol “neutro”, bem aceito por todos os países da América Latina. Em cima dessa matriz, eles fazem uma nova sonorização, dublagem, ruídos e fundo musical (a trilha sonora, da Sigla, é enviada daqui). “Um serviço perfeito, embora um pouco na base da super-representação, dos diálogos aos ruídos” — comenta Paulinho Ubiratan. “Mas o preço não é baixo: eles cobram 25 dólares pelo minuto da dublagem”. Junto com a matriz, segue para o México um script corrigido, e aí entra em cena um outro personagem importante da Divisão Internacional: Martha Medici, a script-girl, que grava e ouve todos os capítulos retificado o roteiro original conforme as improvisações dos atores, modificações e cortes, inclusive os efetuados por Paulinho. (O Globo, 1975a. Grifos meus).

Para um brasileiro, entrar às segundas-feiras no estúdio nº 1 da CINSA (Cinematográfica Interamericana S.A.), na Cidade do México, determina inevitavelmente a sensação de que vai assistir a um espetáculo no mínimo desastroso […]. Toda semana, nesse dia, a principal empresa mexicana de dublagem coloca voz nas personagens da novela “O Bem-Amado” […]. Como é possível passar ao espanhol o inconfundível acento nordestino de Paulo Gracindo, o “Odorico” […]? E o “Zeca Diabo” de Lima Duarte? Dentro do estúdio, contudo, em menos de meia hora, as impressões são desfeitas e os resultados, até mesmo para os mais exigentes ouvidos brasileiros, soam supreendentemente bons. “Aqui”, revela sem falsa modéstia Carlos Ortigoza, 60 anos, homem experiente no ramo e diretor-fundador da empresa, “conseguimos às vezes até melhorar as vozes originais […]. Claro que não é o caso de “O Bem-Amado”, mas acho que nossas vozes estão muito boas na telenovela” […]. (Veja, 1976).

A título de curiosidade, é válido ressaltar a respeito dos padrões técnicos intrínsecos à problemática de transcodificação supracitados:

Quando o governo militar decidiu que a televisão brasileira teria que passar a transmitir em cores, havia três sistemas para serem escolhidos: o americano NTSC (National Television System Committee) que, por usar um botão de controle da cor e outro para regular o matiz, era chamado nos Estados Unidos de “Never Twice Same Color”; o francês SECAM (Séquentiel Couleur Avec Mémoire) e o alemão PAL (Phase Alternating Line). O problema é que o sistema brasileiro deveria ser compatível com os televisores que estavam no mercado, em preto e branco, que recebiam imagens de 525 linhas, o chamado padrão M. A televisão americana operava com 525 linhas, mas o sistema de cor era ultrapassado e os sistemas francês e alemão operavam com 625 linhas. Os alemães, enxergando as dimensões do nosso mercado, desenvolveram, com engenheiros militares brasileiros, liderados por Alcione Fernandes de Almeida Jr., um PAL-M de 525 para ficar compatível com os nossos televisores em preto e branco […]. O sistema PAL-M praticamente foi imposto pelo governo à iniciativa privada […]. O problema é que não havia desenvolvimentos internacionais para a fabricação de equipamentos no sistema adotado, como câmeras, videotape e tudo o mais. O preço dos equipamentos, feitos sob encomenda, incluía o custo do desenvolvimento e eram proibitivos e demorados […]. O Ministério das Comunicações, com medo de deixar brecha para a entrada do NTSC, não liberava a compra de equipamentos de produção nesse sistema, que eram mais baratos por serem produzidos em linha e que poderiam ser convertidos para transmissão em PAL-M […]. Demorou muitos anos para que ocorresse essa liberação de equipamentos em NTSC, reduzindo investimentos e custos operacionais. Somente depois da existência da SET (Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão), fundada pelo engenheiro Adilson Pontes Malta, em 1988, é que o problema foi resolvido. (Oliveira Sobrinho, 2011, p. 309–311. Grifos meus).

Para além dos trabalhos de adaptação de “O Bem-Amado” aos países hispânicos, a Divisão Internacional também se deparava com a possibilidade de exibir as novelas brasileiras em Portugal, e sem a menor necessidade de dublagem:

Alberto havia tido uma excelente acolhida em Portugal. A Globo montara um circuito fechado, a cores, no stand brasileiro da Feira Industrial de Lisboa e ali exibira trechos de programas com Pelé, Fittipaldi, Roberto Carlos, escolas de samba e carnaval. “Aquilo congestionou o nosso stand. Acho, portanto, que independentemente do aspecto comercial, a exibição de programas brasileiros nas televisões estrangeiras constituem um dos mais eficazes veículos de propaganda da imagem do Brasil no exterior. Sem considerar o aspecto cultural: haverá melhor forma de divulgar a literatura brasileira do que a exibição de “Gabriela”, que breve estará no ar em Portugal?”. A venda de Gabriela para Portugal só recentemente foi concretizada [“Um ano depois de Gabriela se ter estreado no Brasil, Carlos Cruz, na altura diretor de programas da RTP, viajou até ao Rio de Janeiro para perceber melhor todo o projeto de ficção da telenovela da Globo, concretizando depois a sua compra”. (Calheiros, 2022. Grifo meu)] por uma questão um tanto pitoresca: julgava a direção da TV de lá que a maneira de falar brasileira não seria compreendida por grande parte do público português, notadamente parte da população do norte do país. De fato, o brasileiro tem certa dificuldade de compreender a pronúncia de algumas regiões, mas a recíproca não é verdadeira. Foi feita uma experiência, consultou-se o público e determinou-se que a dublagem não seria necessária. Os custos dessa dublagem (no caso, específica para somente um país) tornaram impraticável a transação. Como a televisão portuguesa tem uma faixa de horário muito pequena — entra no ar por volta das 16 e sai às 23 horas — provavelmente vai exibir dois capítulos da novela por dia, em dias alternados. Sem problemas de dublagem, reedição e transcodificação, “Gabriela” será enviada para Portugal do jeito que está, o que simplifica notavelmente o problema [Efetivamente, havia sim necessidade de transcodificação de PAL-M para PAL. Ao menos na década de 1970, sabe-se que esses serviços eram contratados pela RTP (Rádio e Televisão Portuguesa) para uma firma inglesa (Diário de Lisboa, 1979)]. Já com “O Bem-Amado”, o processo é muito mais complicado — e custa muito mais caro. (O Globo, 1975a. Grifos meus).

“Além de Portugal, Angola mostrou interesse pela aquisição do tape de “Gabriela”, conforme proposta encaminhada à Globo. A repercussão da novela não pára aí: […] a televisão alemã exibiu um documentário sobre a história da novela, descrevendo todo o seu processo de realização. (O Globo, 1975b)

Até janeiro de 1976, a Globo já havia fechado negócios alusivos à exportação de obras “para mais de 12 países, […] em operações que já renderam ao país divisas superiores a 250 mil dólares” (Bettencourt, 1976):

Mercados abertos — Até o momento a Rede Globo exportou “Gabriela” para Portugal e “O Bem-Amado” para Costa Rica, Curaçao, Chile, Equador, El Salvador, Estados Unidos (canal de língua espanhola), Guatemala, Nicarágua, Panamá e Uruguai, dublada para o espanhol. As novelas começarão a ser transmitidas em espanhol na primeira semana de março. Também exportou alguns musicais do Fantástico para a França e alguns “Casos Especiais” para Portugal. No momento, a TV Globo está mantendo entendimento com a televisão francesa para co-produções de musicais brasileiros. (Bettencourt, 1976. Grifos meus).

A compra francesa, mencionada na citação anterior, foi realizada no último semestre de 1975 para um programa especial, exibido em 31 de dezembro daquele ano pela ORTF — Organisation Radio-Télévision Française, reunindo “as principais passagens do “Fantástico” em seus dois anos de vida, uma ou outra seleção do “Globo de Ouro”, os musicais de Sérgio Mendes, Silvio Caldas, Noel Rosa, Roberto Carlos e Elis Regina, além de uma montagem de trechos apresentados no “Globo Repórter”. A seleção das passagens foi feita por Luís Carlos Pires, e editada por Paulo Ubiratan (O Globo, 1975b).

2. As estreias internacionais de “El Bien Amado” e “Gabriela”


Logo da DPI hispânica de “O Bem-Amado”. Fonte: O Globo, 1977c.

Em 22 de março de 1976, segunda-feira, “El Bien Amado” enfim estreou através do canal uruguaio Monte Carlo TV, sediado na capital Montevidéu, sendo exibida de segunda a domingo às 20h30 (El Soldado, 1976). Essa versão DPI — sigla para Divisão de Produção Internacional — redistribuiu os 177 capítulos originais (178 exibidos, já que o de nº 175 fora desmembrado em 2 capítulos, gerando um capítulo “175-A”) da obra em 223 de menor duração (Memória Globo, 2023). O lançamento foi realizado com prestígio pela emissora estrangeira, em solenidade “com a presença do embaixador do Brasil naquele país, ministro das Comunicações uruguaio e demais autoridades” (O Globo, 1976b).

Os povos de língua castelhana terão assim a oportunidade de conviver diariamente com tipos e situações autenticamente brasileiros. Passarão a penetrar na nossa intimidade através de textos dos melhores autores nacionais. Essa possibilidade não passou despercebida aos esforços de nossa diplomacia. Não terá sido por outra razão que no último dia 22 de março, o embaixador do Brasil no Uruguai e seu adido cultural, assim como as mais representativas autoridades daquele país, compareceram à recepção oferecida pela TV Monte Carlo de Montevideo para comemorar o lançamento do primeiro capítulo de “El Bien Amado”. Vale ressaltar que só o esforço da iniciativa privada possibilitaria esse acontecimento. Há quase quatro anos que a Rede Globo mantém permanente contato com as televisões dos países da América do Sul e da América Central para superar três sérios obstáculos: a concorrência do México e Argentina, os dois tradicionais centros produtores e distribuidores de programação para as televisões latino-americanas, a necessidade de dublagem que acarreta custos elevados e agrava consequentemente as possibilidades de concorrência comercial e também problemas técnicos que envolve a conversão da imagem do vídeo brasileiro para as características locais de certos países. Por isso mesmo, os diretores da Rede Globo que a representavam naquela noite histórica em Montevideu foram tomados da maior emoção ao assistir à saudação que a direção da Rede Globo dirigiu a todo o povo uruguaio, pela Televisão Montecarlo, nos momentos que precederam as cenas do primeiro capítulo do “O Bem-Amado”. Naquele instante, os diretores da Globo assistiam também ao desfecho de uma outra novela em que eles próprios foram os protagonistas. (O Globo, 1976a. Grifos meus).

Ao longo daquele ano, mais emissoras de países hispânicos estrearam “El Bien Amado” em suas respectivas programações. Em Assunção, capital paraguaia, poucos dias após a estreia a novela já era “um dos maiores sucessos de audiência […]. Lá, onde — a exemplo da Espanha — existe o hábito da siesta, o horário super nobre é diferente: de 13 às 14 horas, quando as pessoas estão descansando em casa. Justo a hora em que nosso “Amado” vai ao ar” (O Globo, 1976e).

Os muitos clientes não têm se queixado. Os primeiros capítulos de “O Bem-Amado” já são exibidos na Argentina, Uruguai e Paraguai […]. Em setembro, serão lançados no Equador, Chile, Venezuela, Colômbia e na cadeia de doze emissoras que transmitem em língua espanhola nos EUA. Na verdade, essa política de exportação já vem sendo acalentada há bom tempo pela Globo. “Desde os Festivais Internacionais da Canção”, conta Alberto Lopes, diretor da Divisão Internacional da Rede. “Nessa época fizemos contatos diretos com profissionais do mundo inteiro, todos unânimes em elogiar a qualidade de nossas produções”. A Globo tratou, então, de vendê-las. Em países como o México, Uruguai, Curaçao, El Salvador e Estados Unidos, já foram exibidos vários musicais — os especiais com Roberto Carlos, Sérgio Mendes e Elis Regina, além de vários “Globo de Ouro” […]. Na América Latina, a preocupação básica da Globo são as telenovelas. E ela se mostra satisfeita com os trabalhos de dublagem. Fundada em 1957, a CINSA emprega hoje 130 técnicos e atores, entre eles algumas das melhores vozes do teatro, cinema e rádio mexicanos […]. A empresa mexicana recebe os tapes acompanhados do script, traduzido por João Barbosa do Nascimento, brasileiro que há oito anos comanda um programa de samba numa rádio local. Graças a invenção de seus técnicos, o americano Deloy White, a CINSA consegue dublar diretamente sobre o tape original. “Somos os únicos no mundo a utilizar esse sistema”, garante Ortizoga, “o que já explicaria porque a Globo nos contratou”. Ele mesmo, porém, encontra outro bom motivo: “no espanhol dos diversos países da América Latina, os sotaques são extremamente coloridos e diferenciados, enquanto o mexicano é uma espécie de espanhol neutro, válido para todos”. A CINSA tem como tão certo o mercado de exportação de novelas da Globo — já foi acertada a dublagem de “Pecado Capital” de Janete Clair — que está construindo um estúdio, o de nº 5, especialmente destinado a trabalhos para sua cliente brasileira. (Veja, 1976. Grifos meus).

Em dezembro, Angel (1976b) menciona “algumas negociações da Globo com as cadeias americanas de TV (NC e ABC)”:

A ideia seria vender para apresentações coast-to-coast, dubladas para o inglês, algumas novelas globais de grande sucesso. O carro-chefe, por enquanto, nas transações, tem sido “O Bem-Amado”. Seguido de perto pelo “Pecado Capital”, Caso as negociações realmente se realizem, seria este o primeiro passo para a projeção, em níveis internacionais (de popularidade e de publicidade) dos trabalhos interpretativos de Paulo Gracindo, Betty Faria, Francisco Cuoco etc. Quanto às possibilidades de sucesso de nossas novelas por lá, acho que são grandes. Já que as novelas nos states são ao vivo, duram pouco, super soap-opera (água com açúcar), ou então são do tipo sofisticado (como “Rich Man, Poor Man”) […]. Fica então uma lacuna para as novelas do tipo “O Bem-Amado”, com diálogos humanos, críticas sociológicas, gente. Os mais empolgados com esta perspectiva, por enquanto — é claro! — são os autores […] Dias Gomes e Janete Clair. (Angel, 1976b. Grifos meus).

Em janeiro de 1977, enquanto “Pecado Capital” estava sendo negociada para ser exibida em toda a América Latina (Angel, 1977a), “El Bien Amado” era exibida nos Estados Unidos (para a comunidade hispanófona), Uruguai, Argentina, Bolívia e Paraguai e havia recém estreado em Curaçao, Aruba e México. Previa-se para fevereiro a estreia no Equador, Porto Rico e República Dominicana; para março, na Nicarágua e no Chile; e em Costa Rica, Peru, Venezuela, Colômbia, El Salvador, Guatemala e Honduras até o fim do ano (O Globo, 1977a). Naquele mês, O Bem-Amado também tornou a ser exibida no Brasil, em uma reprise emergencial ocasionada pela censura à trama inédita que seria apresentada na faixa das dez da noite, “Despedida de Casado”. À ocasião, o editor da versão DPI, Paulo Ubiratan, também foi o responsável pela edição da reprise no Brasil:

Nesses últimos quatro anos ele já assistiu a novela nove vezes e conhece todos os takes e diálogos: “Mesmo se fosse preciso assistir mais dez vezes, eu assistiria. Tenho o maior carinho por ela, pois foi meu primeiro trabalho na Globo. Assisti pela primeira vez o original, depois editei, acompanhei a sonorização, e ainda assistia em casa para ver se tinha algum problema técnico que pudesse ser contornado nas próximas edições. Depois reeditei a novela para ser vendida na América Latina e acompanhei a dublagem feita no México. Assisti também as quatro cópias para distribuição e agora volto a reeditá-la transformando em compacto. Paulo Ubiratan encontrava-se em lua-de-mel em São Paulo, quando foi localizado pela Globo no dia da interdição de “Despedida de Casado”. Os planos de uma viagem pelo interior ou mesmo do descanso e adaptação à vida de casado foram cancelados por algum tempo. No momento encontrava-se de licença do Departamento Internacional onde reedita programas e novelas para serem vendidos […]. Apesar de ter passado por um incêndio, apenas um capítulo da novela foi perdido e acredita-se que sejam poucos os problemas técnicos que possam surgir. (O Globo, 1977a).

Por seu desempenho em “O Bem-Amado”, Paulo Gracindo recebeu o prêmio de Melhor Ator de TV do I Festival de Novela do México, em novembro de 1977 (Angel, 1977c). Também envolvidos na obra, Emiliano Queiroz, Sandra Bréa, Gracindo Junior, Jardel Filho, Lima Duarte e Régis Cardoso foram indicados em categorias à ocasião (Angel, 1977d).

Anúncio impresso da estreia de “Gabriela” em Portugal. Fonte: Diário de Lisboa, 1977a.

Em 16 de maio de 1977, segunda-feira, foi a vez do início da trajetória internacional da telenovela “Gabriela”, adaptação da obra de Jorge Amado exibida em 1975 no Brasil, na faixa das dez da noite, em 132 capítulos (Brinca Brincando, 2008). No país europeu, sem necessidade de dublagem e, portanto “mostrando termos como ‘jagunço’ e outros sem similar no português luso, e encarado pelo público da maneira mais cordial possível” (Jornal dos Sports, 1977), os capítulos originais de “Gabriela” eram exibidos de segunda a sexta, entre 20h30 e 21h05 (Diário de Lisboa, 1977a), sem intervalos comerciais e em preto e branco pela RTP1. A título de curiosidade: as primeiras emissões televisivas em cores em Portugal só viriam a ocorrer a partir de 7 de março de 1980, dia do 23º aniversário da empresa, na final do Festival RTP da Canção (RTP 50 Anos de História, 2007).

Antes de lançar “Gabriela”, a RTP testou a possibilidade de os portugueses entenderem bem o “brasileiro”, com extensas consultas após a apresentação de alguns Casos Especiais, também exportados experimentalmente pela Globo. A resposta foi positiva — apesar de o crítico Mário Crispim, do Diário de Lisboa […] ter chegado a sugerir que “Gabriela” fosse legendada. Não se nota, porém, nos portugueses nenhuma prevenção — e sim simpatia — pelas nuances com que o Brasil coloriu sua linguagem […]. (Veja, 1977a).

Excepcionalmente na data de estreia, “Gabriela” foi exibida às 21h35, com a “apresentação do 1º episódio e um show com a actuação de Vinicius de Moraes, Toquinho, Maria Creuza e um quarteto instrumental. Realização de Vitor Manuel” (Diário de Lisboa, 1977a), com a presença de “convidados (talvez 300) no salão nobre do Hotel Ritz (Lisboa) onde, a um canto, se improvisou um estúdio, para actuarem” (RTP 50 Anos de História, 2007) as apresentações musicais. O lançamento se deu poucos dias antes da demissão do então superintendente de produção e programação da Globo, Walter Clark, que, entre suas últimas realizações como contratado, representou a emissora na estreia portuguesa de “Gabriela”:

Durante todo o dia de ontem, a crise que culminou com a demissão do Sr. Walter Clark Bueno teve lances similares às novelas da televisão. Pela manhã, ao desembarcar no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, procedente de Nova Iorque, o Sr. Walter Clark negou seu afastamento afirmando que não tinha conhecimento de nada. Um dia antes, entretanto, vários funcionários da TV Globo já sabiam da demissão, decisão que teria sido tomada pelo Sr. Roberto Marinho quando seu funcionário mais importante se encontrava fora do país, em viagem de serviço. Walter Clark viajou para Portugal, no dia 14, para assistir ao lançamento da novela Gabriela na televisão portuguesa. De Portugal, foi para Nova Iorque, onde negociou a venda do Fantástico para uma cadeia norte-americana de televisão. Embora houvesse viajado com a crise em pleno desenvolvimento, é possível que, ao desembarcar no Rio, às 6h, não soubesse que, horas mais tarde, estaria definitivamente afastado da empresa […]. Para Walter, “a Globo é hoje uma televisão com padrão internacional”. E relembra os 20 dias passados entre Portugal e Nova Iorque. No dia 16 último a novela Gabriela foi lançada em Portugal, com acompanhamento de um show de Vinícius de Morais: “O Presidente Eanes me recebeu e achou que a iniciativa de exportação de programas, principalmente fora dos padrões comuns, é fator de integração. Sugeriu que tentássemos o mesmo em Angola, Guiné, e Moçambique. A unidade poderia ser catalisada. O Afonso Arinos me telefonou do Porto, contando que a cidade parou com Gabriela. Isto tudo dá bem o sentido do estágio da TV Globo”. Em Nova Iorque, onde está sendo exibida a novela O Bem-Amado, Walter acertou para que o Fantástico seja levado em canais de língua espanhola, entre 18h e 20h. “Estivemos também, eu e Oriovaldo, com o presidente de uma grande companhia anunciante, cliente da ordem de 400 milhões de dólares por ano, que pensa numa novela brasileira, dublada em inglês, para as televisões americanas”. (Jornal do Brasil, 1977. Grifos meus).

Cobertura do evento de lançamento de “Gabriela” em Portugal. Fonte: Manchete, 1977.


“Gabriela”, afinal, arrematou os corações lusitanos e converteu-se em fenômeno: “Não se esperava que durante 6 meses, pelo menos 4 milhões de espectadores se tornassem fiéis a um produto novo, que chegava e vencia”: “a verdade é que o País quase parava à hora da telenovela brasileira e esta teve o peso suficiente para modificar hábitos adquiridos por muita gente, para modificar os seus compromissos horários e compatibilizá-los com os dos visionamentos” (RTP 50 Anos de História, 2007. Grifo meu).

Embora longe de se identificar com a maior parte dos conflitos em que aquela terra de Ilhéus era demasiado pródiga, o nosso espectador não se furtou à crescente atracção pelas situações que, dia após dia, se iam entrelaçando e nas quais se movimentavam personagens que, essas sim, eram distinguidas com carinho, indiferença ou desamor, consoante a intervenção que tinham no enredo e o seu comportamento era julgado pelo implacável juiz que é o público. Deu-se este conta, através de “Gabriela”, que a telenovela, a primeira que via, tem os seus próprios alinhavos — uma arte de escrita, um conjunto de imagens e de sons (a música, essa é fundamental) sustentador do desenrolar da acção, um grupo de intérpretes que não apenas a animam mas também têm sobre si a responsabilidade de comunicar para o exterior os sentimentos que conferem humanidade a qualquer história […] Não se confirma (mas também não se desmente) que certo Conselho de Ministros tenha sido interrompido para que os participantes pudessem seguir o episódio final da telenovela; e que o secretário-geral de um partido político tradicionalmente austero tenha chegado aos estúdios da RTP, para participar no programa “Mosaico”, com ligeiro atraso, não por ter estado reunido com trabalhadores, mas porque não quis perder o final de um episódio… […]. Salas de cinema houve que tentaram retardar o início das sessões (na província, algumas, fizeram-no mesmo) enquanto que empresários do ramo, também muito preocupados com o desafio que a emergente telenovela lhes lançava, tomaram a decisão de instalar receptores de TV nos átrios das suas casas de espectáculo. (RTP 50 Anos de História, 2007. Grifos meus).

A partir de 17 de agosto de 1977, quarta-feira, enquanto a exibição principal na RTP1 ainda apresentava capítulos inéditos, a RTP2 iniciou uma exibição alternativa de Gabriela, desde o princípio da obra, de segunda-feira a domingo, em uma faixa de meia hora às 21h30 (Brinca Brincando, 2008) [A partir de 1978, a exibição de “Gabriela” na RTP2 foi atrasada para 22h25. A emissão chegou ao fim em 9 de fevereiro daquele ano]. Em setembro de 1977, Paulo Gracindo fora a Lisboa a convite da TV portuguesa (O Globo, 1977b); naquele mesmo mês, Dias Gomes também visitou Portugal em razão do sucesso de sua peça “O Santo Inquérito” no país: “conta que a pergunta que mais ouviu foi: ‘Quando Bem-Amado’ vai estrear na televisão aqui?” (O Globo, 1977d).

O inicialmente acordado entre a RTP e a Globo era, de fato, exibir “O Bem-Amado” em substituição a “Gabriela”, “também sem dublagem, apesar de todos os seus regionalismos. “Gabriela”, então, serviria também como instrumento para acostumar os telespectadores portugueses à nossa linguagem e prepará-los para o texto de Dias Gomes” (Angel, 1977b). No entanto, o planejamento não se concretizou, e “O Bem-Amado”, após diversos anúncios não efetivados no ar, só seria vista em Portugal no ano de 1984. Com o fim da exibição portuguesa, “o então Diretor de Programas reivindicou o mérito da aquisição deste produto, alegando que a telenovela não tinha sido vista até então por motivos políticos, dado haver muitos caciques protegidos por antigos governos que se identificavam com Odorico Paraguaçu” (Brinca Brincando, 2008).

Cunha (2022, p. 56) destaca que, na reta final de “Gabriela” em Portugal, uma polêmica voltada ao nº de capítulos original da novela tomou conta da imprensa local:

(Seriam 160 ou seriam 130 capítulos?). Esta polémica tratada por alguns jornais num tom conspiratório denuncia, de certa forma, exemplarmente, a orientação político-partidária da redação do jornal. Na interpretação de alguns jornalistas, a supressão dos últimos capítulos, visaria suavizar o caráter de denúncia política e social presente na telenovela; para outros tratava-se de mais um lapso no funcionamento, sempre deficiente, da televisão estatal; para outros ainda, um outro final feito pela Globo e enviado para Portugal. (Cunha, 2022, p. 56).

Diário de Lisboa noticia suposta supressão de capítulos de “Gabriela”. Fonte: Diário de Lisboa, 1977b.

Os telespectadores portugueses não verão 30 dos 160 episódios [O que não procede, haja vista que já na emissão brasileira, em 1975, “Gabriela” foi composta de 132 capítulos exibidos] que constituem o popular folhetim “Gabriela”, cuja transmissão a RTP hoje conclui. Com efeito, e segundo informação colhida pelo DL directamente do Brasil, a já célebre telenovela tem mais 30 episódios dos que a TV portuguesa transmitiu. Em contacto com a administração da RTP, fomos informados de que tal facto deve-se à TV Globo, que terá enviado apenas os episódios que a nossa televisão tem transmitido, adiantando ainda a hipótese de a congénere brasileira o ter feito em termos de comercialização para o exterior. Sobre o facto de a RTP ter anunciado, no início das transmissões, que iriam ser exibidos 160 episódios, fomos informados ter-se tratado de “lapso”. De qualquer modo é muito estranho que a “Gabriela” fosse exibida na íntegra num Brasil com um regime ditatorial e seja exibido truncado no “democrático” Portugal.
 (Diário de Lisboa, 1977b apud Cunha, 2022, p. 56).

“Gabriela” chegou ao fim de sua primeira exibição estrangeira, via RTP1, na quarta-feira de 16 de novembro de 1977. Mesmo após seu encerramento, a novela aumentava sua coleção de histórias peculiares em Portugal:

A última de “Gabriela” que nos chega de Portugal é o escândalo provocado por uma agência de turismo que estava vendendo, com grande sucesso e procura, excursões para o Brasil, com parada obrigatória na Bahia e direito a conhecer pessoalmente a Gabriela e ir ao bar do Seu Nacib, sendo servido pelo próprio. O curioso em tudo isso é que o jornalista que descobriu e denunciou a farsa, foi atacadíssimo por seus colegas da imprensa, que o acusaram de “tirar a ilusão e a fantasia do público, desmistificando o mito Gabriela”. (Angel, 1977d).

No último semestre daquele ano, um informe publicitário informava que “programas produzidos e distribuídos pela Rede Globo estão sendo vistos em 51 canais de televisão de 23 países” (O Globo, 1977c). Através do anúncio, é possível verificar um detalhado panorama da exportação dos programas da emissora até ali para além das telenovelas “O Bem-Amado” e “Gabriela”, como no caso dos programas da série “Brasil Especial”.

Informe publicitário “Para onde vai a televisão brasileira?”.

O sucesso de “O Bem-Amado” chamou a atenção da Televisa, que se interessou por “Duas Vidas”. Em novembro de 1977, a Globo iniciou o processo de dublagem de “Pecado Capital” e “O Espigão” (Veja, 1977b).

A exportação de “Duas Vidas” acabou não ocorrendo. Rememora-se, a título de curiosidade, que nos anos 1980, a trama de Janete Clair foi uma das selecionadas para o reaproveitamento sistemático de mídias quadruplex realizado pela Globo, em razão de restrições impostas pela Cacex — Carteira de Comércio Exterior do Banco do Brasil — , cujas normas inviabilizaram a importação suficiente de fitas virgens (Sarturi, 2024). Hoje, o acervo da Globo dispõe somente de 6 capítulos de sua versão integral: o 1º, o 2º, o 76º, o 77º, o 153º, e o último, 154º.

Em contrapartida, o autor apurou que da reprise compacta ocorrida em janeiro de 1981, remontada em 20 capítulos, a situação revela-se menos desanimadora, posto que dela constariam acervados, na verdade, cerca de 16 capítulos: 1, 2, 3, 5, 6, 7, 8, 9, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 18 e 20 (último). Faltariam, portanto, os capítulos 4, 10, 17 e 19 (penúltimo).

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Na 2ª parte dessa reportagem, o histórico da 2ª fase da Divisão Internacional da TV Globo.